sexta-feira, 27 de junho de 2008

Identidade e alteridade



"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."




Clarice Lispector, ucraniana, de nome de batismo Haia Lispector, nasce sob o signo de sagitário. Publica seu primeiro conto – TRIUNFO – aos 20 anos. Aos 22 anos de idade, recebe seu primeiro registro profissional como redatora do jornal "A Noite". Nessa época se interessa por Drummond, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Nesse ano, escreve seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. E não para mais, até o dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário quando morre no Rio.

Clarisse, num conto entitulado “O Búfalo”, deseja expressar o rompimento ou decepção amorosa vivida pela personagem, e conseqüentes solidão e dor .O conto é centrado em uma personagem que, após sofrer uma forte decepção amorosa, deseja, ardentemente, transformar seu amor em ódio. Porém, mais que isso, aborda algo mais profundo: o indivíduo que busca respostas para questões que apenas admitem respostas provisórias e se coloca diante deste “outro” que é parte intrínseca do “eu” que o constitui. Ver-se outro, enxergar-se diante de outros permite dimensionar os limites e os contornos daquilo que constituiria sua identidade.
O ódio, sentimento negativo, irracional e “indigno” do ser humano, é buscado no “mundo das bestas”, representado pelo zoológico - os dois mundos (o dos seres irracionais e dos racionais) estão em constante paralelo no texto, a personagem comparada, muitas vezes, às próprias feras, e as feras vistas de forma humanizada, até mesmo, “cristianizada”.
Quisera, a personagem, aprender a odiar, a desenvolver em seu seio sentimentos bestiais, “indo ao zoológico para adoecer”. No entanto, as bestas “na primavera se cristianizam...”: o amor do leão levando a leoa à supremacia, comparada à figura da Esfinge, a girafa inocente como uma virgem, o hipopótamo e seu amor humilde, a macaca-mãe com olhar resignado, o macaco velho com doçura nos olhos, o elefante dócil, o camelo paciente e o quati ingênuo. Porém, há o búfalo negro... e ela pode, finalmente, sentir o ódio na troca de olhares; o búfalo, ora sendo identificado com a personagem, ora representando o outro. Busca-se, a todo instante, através do olhar dos animais um canal de acesso a si mesmo. No momento em que a personagem, que já perdia as esperanças de "aprender a odiar" (“...Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio?”), já visualizando pequenas nuvens brancas e brotos nascendo nas árvores, depara-se com o vulto negro do búfalo olhando-a nos olhos ( a brancura que se espalhara dentro dela dá lugar ao primeiro fio de sangue negro).
O conto “O Búfalo” é rico em figuras (ou tropos), sendo a metáfora a mais importante delas, onde as imagens concretas se misturam às imagens afetivas, oferecendo ao leitor abstrações do autor a partir da observação da natureza exterior e interior dos seres.
Clarice sabe, como ninguém, despertar a emoção no leitor e, conseqüentemente, um maior envolvimento.


Quer ler o conto? É só clicar no link ao lado!




domingo, 22 de junho de 2008

Quando havia galos, noites e quintais

Confesso: sou saudosista. Mas não sou do tipo depressivo, que lamenta estar vivendo outros tempos piores. Não. Reconheço que muita coisa mudou para melhor. A mudança é um aspecto comportamental inerente ao ser humano. Neste século, vivenciamos um processo acelerado de transformações, movidas com tanta complexidade e com tamanha rapidez que obrigam o homem de hoje a sentir necessidade de mudar, de buscar melhor qualidade de vida.

Apesar de ciente disto, inúmeras vezes me pergunto: o que aconteceu nos últimos 50 anos que possibilitou, dentre outras coisas, a perda de valores como a honestidade, por exemplo? Creio que foi a desestruturação da família que tem papel fundamental na construção
dos valores ético-sociais e no desenvolvimento saudável da criança. Além disso, fatores como o incentivo ao consumo irracional, a busca pela carreira perfeita, o individualismo crônico, a proliferação de especialistas que explicam tudo, o business transformado em religião , a cultura própria enfraquecida pela globalização, contribuem para o aparecimento dos problemas sociais atuais. No meu tempo de criança, o nome de família deveria ser respeitado a todo custo, bastando a simples palavra empenhada para se ter crédito. E a partir da perde de valores essenciais para a convivência social respeitosa, cresce a violência que assusta e enclausurado os moradores desta cidade, deste país.

Lembro-me bem da minha tenra infância em Bonsucesso, subúrbio carioca. Naquela época ainda não havia ventiladores e, nos dias quentes de verão, era hábito dormirmos em camas de armar no quintal, contemplando o céu que parecia mais estrelado. Acordávamos, vez por outra, com o apito do guarda-noturno que percorria as ruas vigiando possíveis ladrões de galinhas. Sim, galinhas! Quase todos os quintais tinham cachorros e galinhas. Além de pés de cajá, manga, goiaba e pitanga.

E, às cinco horas da manhã, sem precisar de despertador, éramos acordados pelo cantar do galo.

É desse cotidiano que sinto saudade.E não apenas porque são lembranças de minha infância ( é claro que todos sentem saudade dessa época da vida, ainda que tenham sido tempos difíceis); é porque, de fato, vivia-se um tempo mais feliz. "Eu era alegre como um rio,um bicho, um bando de pardais;Como um galo, quando havia...quando havia galos, noites e quintais." (Galos, Noites e Quintais - Belchior)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Em tempos de mediocridade

"A nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças, do que nos nossos bolsos." Arthur Schopenhauer
Neste momento, vivemos sob o domínio da mediocridade. Sem querer parecer saudosista, sou de um tempo em que as pessoas buscavam na educação um meio de crescimento pessoal. Era inquestionável o que disse Aristóteles: “ O homem é uma animal que deseja o saber.” Hoje, nos deparamos com uma triste realidade:o interesse das pessoas pelas superficialidades e conseqüente mediocridade intelectual. É, meu amigo, são tempos medíocres. Venho percebendo, já há algum tempo, que as pessoas estão perdendo o senso crítico e a profundidade de pensamento. Fico incomodada quando ouço pessoas de nível superior conversarem apenas banalidades, sem refletirem sobre que ouvem ou lêem. Infelizmente, isso prova que a mediocridade atinge a todas as classes sociais e níveis acadêmicos. Quando o filósofo Schopenhauer defendeu a idéia de que o excesso de leitura poderia ser prejudicial ao nosso espírito, não foi compreendido e, por isso, foi muito criticado("Ler quer dizer pensar com uma cabeça alheia, em lugar da própria"). No entanto, a sua preocupação era de que não nos ocupássemos muito com as idéias dos outros, destinando mais tempo para exercitar nosso próprio pensamento. Ou seja, ler e refletir sobre o que se leu, não aceitando idéias prontas como verdades absolutas. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo para conhecer-se, para indagar como é possível o próprio pensamento.
Está faltando ao homem de hoje uma atitude filosófica, ou seja, utilizar o raciocínio fundamentado e lógico, ter uma visão crítica e madura da realidade e ter convicções firmes e sustentadas.
“A mente é o homem, e o conhecimento é a mente; um homem é apenas aquilo que sabe”. (Francis Bacon).

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Por que a poesia em tempos de indigência?



"Por que nos tornamos cegos?. Não sei.
Creio que não nos tornamos cegos, creio que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem"
(Ensaio sobre a cegueira. J.Saramago.)

No âmbito sócio-político, as sociedades sofreram significativas mudanças motivadas pelo progresso tecnológico, alterando as bases da existência humana. Uma nova concepção de mundo surgiu, então, supervalorizando a matéria em detrimento dos valores morais e espirituais que entraram em crise profunda. Como conseqüência, a poesia já não é tão acessível, porque a própria realidade fez com que se perdesse a capacidade de ouvir: a si mesmo, o mundo, o outro. Numa sociedade de caráter essencialmente sofístico, como é a nossa, pouca atenção se dá ao que realmente é importante, chegando, por vezes, à banalização total.
Por que poetas em tempos de indigência? – pergunta Hölderlin, que analisa nosso tempo, um tempo de decadência, de declínio, de abismo.

“Ah, meu amigo, chegamos tarde demais... Sim, ainda há deuses mas acima de nossas cabeças, em outro mundo (...) Que dizer? Não sei. Para que poetas em tempos de indigência?".( Hölderlin)

Hölderlin, poeta alemão, foi eleito pelo grande filósofo Heidegger para ser o “poeta da poesia”. "Nosso tempo - comenta Heidegger - mal compreende a pergunta; como vamos compreender a resposta dada por Hölderlin?".
Como Hölderlin manifesta este tempo de indigência? A indigência dos tempos não seria a falta de bens materiais, mas, sim, a falta de sentido das coisas, o afastamento do homem de Deus, a própria indigência que cai no esquecimento, sendo essa a principal miséria deste tempo. E é na poesia, cuja atividade consiste essencialmente em deixar ser o ser, onde o homem busca espaço para manifestar-se. No espaço poético é possível ao homem recuperar sua essência.
A linguagem poética deve ser vista como a que possibilita o homem apreender a verdade do ser e, conseqüentemente, existir, viver humanamente sem perder de vista o diálogo com o mundo; em suma, pertencer ao mundo.
A missão do poeta é, primordialmente, fazer com que a linguagem se desprenda de uma estrutura lógica e passe a ser uma possibilidade para o pensamento e sua expressão. O poeta deve resgatar, através do uso da palavra, o que subjaz a experiência cotidiana: das coisas mais simples extrair pensamentos mais complexos acerca da existência humana, sendo capaz de argumentar sobre o que faz do momento atual uma época de indigência e resgatar os valores éticos e morais afastados da vida moderna. O poeta, ao exprimir o que os outros sentem, está mudando seus sentimentos, por torná-los mais conscientes; está fazendo-os mais sabedores do que sentem e, portanto, ensinando-os algo sobre si mesmos.
É perfeitamente possível dizer que a poesia se entrelaça à filosofia em seu propósito social de fazer com que o homem se entenda e entenda o mundo que o cerca. Entretanto, não se pode esquecer de que a primeira função social da poesia é proporcionar prazer, deixando marcas que fazem diferença à vida do homem. Sem produzir esses efeitos, ela, simplesmente, não é poesia. A poesia faz diferença, afinal, à sensibilidade, às vidas de todo o povo, quer leia e goste de poesia, quer não. E isto é o que quero dizer com a função social da poesia em seu sentido mais amplo: ela realmente influencia a sensibilidade do povo.
Portanto, nesses tempos de indigência em que vivemos, tempos de penúrias e de desencontros, tempos em que parece que a dor do próximo não nos afeta, a poesia exerce um grande papel social: despertar no outro o sentimento –dor e/ou prazer– com o intuito de descobrir a verdadeira sociedade que está por trás das marcas de um tempo voltado para o imediatismo, o consumismo e o excessivo individualismo; descobrir uma sociedade agonizante que, mesmo soterrada por falsos valores, luta, desesperadamente, para manifestar-se.
Roza Palomanes

Leia minhas poesias. Talvez seja pretensão, mas... sou poetisa!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Um ensaio solitário.


Quando paro para refletir em dias chuvosos como o de hoje, quando ficamos mais introspectivos, é que tenho a certeza de que o ser humano é solitário por natureza. Talvez venha daí essa necessidade de buscar o outro a todo custo. E nos enganamos constantemente projetando no outro nossas expectativas e desejos de felicidade. Há coisas que nós mesmos podemos decidir e executar, situações que só nós vivenciamos, dores que só nós expurgamos. E não adianta o que digam ou façam. É claro, e não quero ser tão egoísta assim, que saber que há pessoas ligadas a você, de alguma forma, conforta - pelo menos saberemos que existe alguém que pode nos amparar na queda ou comemorar conosco nossas vitórias.

"E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão. (Clarice Lispector)

Concordo com Jeanne Moreau quando diz que:

"Sentimo-nos sozinhos. Os homens são sozinhos e lutam para evita-lo. Nós não tentamos evita-lo. Sabemos que estamos sós nos acontecimentos mais importantes dos nossos corpos, das nossas vidas."