O que se deixa para trás, um dia nos alcança. Isto é tão certo como dois e dois são quatro. Portanto, o que fica mal-resolvido continua a ser um problema que, mais a frente na vida, virá abocanhar nosso calcanhar.
Quantas coisas deixamos de dizer ou fazer em prol de uma pseudo paz, quer no trabalho, quer em família. Vivemos deixando para lá.
Cada vez mais tenho a certeza de que não se deve deixar que as coisas que nos incomodam fiquem sem serem digeridas. Ainda que haja uma congestão depois.
É errado, segundo os doutrinamentos cristãos, não perdoar uma ofensa. Mas perdoar não quer dizer esquecer.
Arthur Schopenhauer, em 'Aforismos para a Sabedoria de Vida' diz que "perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exatamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exatamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade".
Hoje, concordo plenamente com esse filósofo alemão do século XIX. Estou cansada de deixar pra trás ofensas e, depois, ser abocanhada no calcanhar por aquele que me pediu desculpas uma vez. Se todos fizessem isso, as pessoas teriam mais cuidado no trato com as outras.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Música e Poesia: a relação complexa entre duas artes.
Gosto muito de almoços em família porque, além do convívio com pessoas queridas, há sempre oportunidade para um bom diálogo. Num desses momentos, iniciou-se uma conversa sobre ser ou não a letra de música uma poesia ( digo a boa letra).
Eu defendo que a letra de música é poesia porque é palavra em forma poética e se dá num espaço de melodia, assim como a poesia literária.
Há quem diga que letra de música é um tipo manifesto de poesia, como aconteceu com a Poesia Concreta, a Poesia Processo e outras invenções. Há outros que consideram os letristas poetas “menores” e as letras constituiriam uma subliteratura, mal comparando a arte com o artesanato.
Paulo Henriques Britto, poeta e linguista por formação acadêmica, (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .”
Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense?
Fato é que Música e Poesia se relacionam de tal forma no ato da criação que há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes fez isso com Tom Jobim. O músico “musicaliza” o poema como fez Fagner com poemas de Cecília Meireles e Florbela Espanca.
Há letras de música que podem ser consideradas poemas e outras que não. Não se pode fechar um diagnóstico quando se trata desse assunto.
E para ilustrar, segue, abaixo, um poema de Florbela Espanca, musicado por Fagner e outro poema do considerado poeta popular brasileiro Catulo da Paixão Cearense. Deixo que você feche uma opinião sobre o assunto.
Eu defendo que a letra de música é poesia porque é palavra em forma poética e se dá num espaço de melodia, assim como a poesia literária.
Há quem diga que letra de música é um tipo manifesto de poesia, como aconteceu com a Poesia Concreta, a Poesia Processo e outras invenções. Há outros que consideram os letristas poetas “menores” e as letras constituiriam uma subliteratura, mal comparando a arte com o artesanato.
Paulo Henriques Britto, poeta e linguista por formação acadêmica, (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .”
Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense?
Fato é que Música e Poesia se relacionam de tal forma no ato da criação que há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes fez isso com Tom Jobim. O músico “musicaliza” o poema como fez Fagner com poemas de Cecília Meireles e Florbela Espanca.
Há letras de música que podem ser consideradas poemas e outras que não. Não se pode fechar um diagnóstico quando se trata desse assunto.
E para ilustrar, segue, abaixo, um poema de Florbela Espanca, musicado por Fagner e outro poema do considerado poeta popular brasileiro Catulo da Paixão Cearense. Deixo que você feche uma opinião sobre o assunto.
Fanatismo(Florbela Espanca)
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."
A Flor do Maracujá
Catulo da Paixão Cearense
Encontrando-me com um sertanejo,
Catulo da Paixão Cearense
Encontrando-me com um sertanejo,
Perto de um pé de maracujá,
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo,
Porque razão nasce branca e roxa,
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto,
A estória que ouvi contá,
A razão pro que nasci branca i roxa,
A frô do maracujá.
Maracujá já foi branco,
Eu posso inté lhe ajurá,
Mais branco qui caridadi,
Mais brando do que o luá.
Quando a frô brotava nele,
Lá pros cunfim do sertão,
Maracujá parecia,
Um ninho de argodão.
Mais um dia, há muito tempo,
Num meis que inté num mi alembro,
Si foi maio, si foi junho,
Si foi janeiro ou dezembro.
Nosso sinhô Jesus Cristo,
Foi condenado a morrê,
Numa cruis crucificado,
Longe daqui como o quê,
Pregaro cristo a martelo,
E ao vê tamanha crueza,
A natureza inteirinha,
Pois-se a chorá di tristeza.
Chorava us campu,
As foia, as ribeira,
Sabiá tamém chorava,
Nos gaio a laranjera,
E havia junto da cruis,
Um pé de maracujá,
Carregadinho de frô,
Aos pé de nosso sinhô.
I o sangue de Jesus Cristo,
Sangui pisado de dô,
Nus pé du maracujá,
Tingia todas as frô,
Eis aqui seu moço,
A estória que eu vi contá,
A razão proque nasce branca i roxa,
A frô do maracujá
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