sexta-feira, 17 de abril de 2009

Perdoar é esquecer?

O que se deixa para trás, um dia nos alcança. Isto é tão certo como dois e dois são quatro. Portanto, o que fica mal-resolvido continua a ser um problema que, mais a frente na vida, virá abocanhar nosso calcanhar.
Quantas coisas deixamos de dizer ou fazer em prol de uma pseudo paz, quer no trabalho, quer em família. Vivemos deixando para lá.
Cada vez mais tenho a certeza de que não se deve deixar que as coisas que nos incomodam fiquem sem serem digeridas. Ainda que haja uma congestão depois.
É errado, segundo os doutrinamentos cristãos, não perdoar uma ofensa. Mas perdoar não quer dizer esquecer.

Arthur Schopenhauer, em 'Aforismos para a Sabedoria de Vida' diz que "perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exatamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exatamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade".
Hoje, concordo plenamente com esse filósofo alemão do século XIX. Estou cansada de deixar pra trás ofensas e, depois, ser abocanhada no calcanhar por aquele que me pediu desculpas uma vez. Se todos fizessem isso, as pessoas teriam mais cuidado no trato com as outras.

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Rozapalomanes:
Vim parar em teu blog completamente por acaso, pois tenho o hábito de fazer buscas nos blogs da rede blogspot, incluindo alguns em minhas leituras dominicais. Não costumo comentar o que leio, mas fui tomada pelo irresistível desejo de me comunicar contigo. Parece-me que teu desabafo não foi a nível de teoria. Sinto que alguém te causou um mal tão grave, tão severo, que tu não conseguistes digerir o que se passou. Uma pena, pois também sinto que tu gostas muito dessa pessoa. Como tu não mencionastes especificamente o que aconteceu, resta-me apenas viajar em conjecturas. Fostes traída? Alguém roubou o teu namorado?
Outro ponto a ser considerado é se houve a intenção, por parte de quem te ofendeu, de fazê-lo. E mais: será que na cabeça dessa pessoa não havia motivos para tal? Perdoe-me por levantar este ponto, mas muitas vezes ficamos cegos pela raiva quando somos contestados ou ofendidos e não paramos para meditar e buscar nossa eventual parcela de culpa nos eventos.
Não sei qual é a tua religião, mas imagino que creias em uma Força Maior. "É errado, segundo os doutrinamentos cristãos, não perdoar uma ofensa", tu escrevestes. Então, querida Rozapalomanes, peço que reflitas e busques um entendimento com essa pessoa. Seja superior e busque as razões para o que aconteceu. Se é verdade que ela teve alguma importância, algum valor em tua vida, imagino que a recíproca seja verdadeira. Ela deve estar, também, sofrendo com esse afastamento.
Não sei quando tu lerás esta mensagem, mas espero que reflitas e busques a paz.
Fique com Deus!
Sandra Molinaro

rozapalomanes disse...

Querida Sandra,
Nada é por acaso neste mundo, assim como não foi poracaso que voce visitou o meu blog. Obrigada pela visita e espero que voce tenha gostado de seu conteúdo. Quando escrevo, escrevo, sim, motivada por alguma coisa que vivi ou presenciei mas, no entanto, na maioria das vezes tem o objetivo de levar a uma reflexão ( não só minha, mas de outros que lêem o que escrevo). Neste caso em particular,sua conjecturas a levaram longe demais da realidade dos fatos. Falei sobre alguém que não representa muito para mim e que, no entanto, passei anos tolerando no trabalho com suas grosserias e brincadeiras de mal gosto. Refleti se deveria continuar tolerando aquela pessoa e o resultado dessas reflexões compõe o texto publicado no blog. Você já ouviu falar em Bullying? Pois é, pessoas que praticam este ato costumam ser aquelas que sempre foram perdoadas, toleradas, compreendidas e que foram se expandindo, tomando o espaço do outro, como quem constrói na beira do mar, invadindo a areia. Um dia, o mar resolve reclamar seu espaço e é "criticado" por isso. Concordo com Schopenhauer, citado no texto, que diz que se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita uma segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exatamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pense nisso.
Obrigada e volte sempre.
Roza