domingo, 12 de abril de 2009

Música e Poesia: a relação complexa entre duas artes.

Gosto muito de almoços em família porque, além do convívio com pessoas queridas, há sempre oportunidade para um bom diálogo. Num desses momentos, iniciou-se uma conversa sobre ser ou não a letra de música uma poesia ( digo a boa letra).
Eu defendo que a letra de música é poesia porque é palavra em forma poética e se dá num espaço de melodia, assim como a poesia literária.
Há quem diga que letra de música é um tipo manifesto de poesia, como aconteceu com a Poesia Concreta, a Poesia Processo e outras invenções. Há outros que consideram os letristas poetas “menores” e as letras constituiriam uma subliteratura, mal comparando a arte com o artesanato.
Paulo Henriques Britto, poeta e linguista por formação acadêmica, (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .”
Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense?
Fato é que Música e Poesia se relacionam de tal forma no ato da criação que há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes fez isso com Tom Jobim. O músico “musicaliza” o poema como fez Fagner com poemas de Cecília Meireles e Florbela Espanca.
Há letras de música que podem ser consideradas poemas e outras que não. Não se pode fechar um diagnóstico quando se trata desse assunto.
E para ilustrar, segue, abaixo, um poema de Florbela Espanca, musicado por Fagner e outro poema do considerado poeta popular brasileiro Catulo da Paixão Cearense. Deixo que você feche uma opinião sobre o assunto.

Fanatismo(Florbela Espanca)

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."
A Flor do Maracujá
Catulo da Paixão Cearense

Encontrando-me com um sertanejo,
Perto de um pé de maracujá,
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo,
Porque razão nasce branca e roxa,
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto,
A estória que ouvi contá,
A razão pro que nasci branca i roxa,
A frô do maracujá.
Maracujá já foi branco,
Eu posso inté lhe ajurá,
Mais branco qui caridadi,
Mais brando do que o luá.
Quando a frô brotava nele,
Lá pros cunfim do sertão,
Maracujá parecia,
Um ninho de argodão.
Mais um dia, há muito tempo,
Num meis que inté num mi alembro,
Si foi maio, si foi junho,
Si foi janeiro ou dezembro.
Nosso sinhô Jesus Cristo,
Foi condenado a morrê,
Numa cruis crucificado,
Longe daqui como o quê,
Pregaro cristo a martelo,
E ao vê tamanha crueza,
A natureza inteirinha,
Pois-se a chorá di tristeza.
Chorava us campu,
As foia, as ribeira,
Sabiá tamém chorava,
Nos gaio a laranjera,
E havia junto da cruis,
Um pé de maracujá,
Carregadinho de frô,
Aos pé de nosso sinhô.
I o sangue de Jesus Cristo,
Sangui pisado de dô,
Nus pé du maracujá,
Tingia todas as frô,
Eis aqui seu moço,
A estória que eu vi contá,
A razão proque nasce branca i roxa,
A frô do maracujá

Um comentário:

Anônimo disse...

Para começar, há algo que me chamou a atenção de cara no seu texto.É o fato de você sempre exemplificar casos em que a poesia é musicada, mas nunca um único caso em que um livro de letra de música ( músicas populares ) tenha sido lançado junto ao meio editorial literário. Ou reconhecido por este como literatura.

Percebe-se aí que quando há essa relação é sempre a poesia que vem fazer uma incursão no universo da canção popular, mas nunca o contrário. É sempre a poesia que vai tomar um cafezinho no pé sujo da esquina junto aos beberrões, aos operários, às donas-de-casa e aos estudantes que, com freqüência ( ainda escrevo com trema ), ouvem mais facilmente esses poemas nas esquinas do que nas escolas.E mesmo quando as escolas estudam os compositores populares em detrimento da herança poética daqueles que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando“, como dizia Luiz( o do Luzíadas), são elas que estão descumprindo a sua obrigação moral e natural ( natural porque a universidade nasceu com esse propósito )de fazer elevar o espírito daqueles que dela esperam isso.Ou deveriam esperar.

Repare que, embora a iniciativa dessa comunhão tenha partido dos autores populares, as músicas que contêm versos da, antigamente chamada, grande cultura vem sempre circular nos meios da chamada baixa cultura. É o Fagner que faz a Cecília Meireles e a Florbela Spanca circularem entre os seus milhares de ouvintes habituais; é a Legião Urbana que leva os seus a entrarem em contato com o soneto ( veja que eu uso “ o soneto”, no singular, mesmo – porque só aconteceu uma vez ) de Camões. A exceção é o Vinicius de Moraes, que veio por conta própria.

Para que você pudesse estabelecer uma relação comparativa de valor seria necessário que o contrário também acontecesse: que essas letras circulassem nos meios literários mais desenvolvidos como poesia. Sem o auxílio da música.

Imagine a cena: alguns compositores estão reunidos numa roda de samba ou de bossa nova, num bar ou num apartamento, quando alguém diz para o Chico Buarque que tem uma musiquinha, é assim que eles falam, pra mostrar pra ele ( Chico ).
O Chico ouve, gosta e diz: “pera aí”! Pega um lápis, vai prum cantinho do bar ou do apê e, dali a cinco minutos, sai com uma letrinha bonitinha, mas ordinária.
Eles cantam a música, já com a letra; as pessoas que estão no ambiente, todas amigas dele, se emocionam e é tudo muito lindo. Comovente mesmo.

Acontece que seria necessário que ele fosse muito mais genial do que qualquer poeta pra que, fazendo uma letrinha em cinco minutos ( muitas vezes ele fazia assim mesmo ) num cantinho de uma reunião social, ele pudesse fazer algo do tamanho de alguém que levou horas, dias ou anos elaborando seu poema.Eu falo dos grandes.
Quando ele quis alçar vôos mais altos se isolou em Paris para escrever seus livros que, na opinião de muitos críticos respeitados, não alcançaram a altura necessária para usufruir do convívio do cânone da alta ou média literatura brasileira.
Como conseguiria isso em cinco minutos?

Você já reparou que os que defendem a tese da qualidade literária da canção popular,
não preparou uma lista, mesmo que incompleta, das letras que contém esse valor?

Não elaborou uma hierarquia de valor dessas canções?

Não disse em quê essas letras se diferenciam das demais, ou será que toda letra da musica popular brasileira tem valor semelhante e, portanto, passível de estudo nas altas esferas? Nesse caso, “Churrasquinho de Mãe”, do Teixeirinha, teria acesso a esse cânone?

O que essa gente quer é igualar tudo por baixo, ou melhor, pelo meio.Eliminar toda a hierarquia de valor, eliminando assim o discernimento.
O poeta Bruno Tolentino dizia que as árvores se comunicam pelas copas.
Como é mais difícil subir do que descer, a preguiça intelectual brasileira achou por bem derrubar tudo que fosse elevado e colocar a meio metro do chão.

Fazem o mesmo com os valores. Quantas vezes a gente não ouviu ou viu um assassino cruel ser colocado em pé de igualdade com a vítima como se fossem equivalências opostas?


Claro que eu não estou comparando os compositores populares, de quem eu tenho uma plêiade de admirados, aos assassinos cruéis. Estou acusando um método que se tornou freqüente na sociedade brasileira, que a influencia de alto a baixo.

Pra quê colocar esse peso nas costas de nossos queridos cancioneiros?
Vamos deixar que continuem seu caminho sem a exigência da presunção hermética pedante.


Não faça de seu compositor popular um poeta. A vítima vai ser você.

Beijo,

Lula.