domingo, 22 de junho de 2008

Quando havia galos, noites e quintais

Confesso: sou saudosista. Mas não sou do tipo depressivo, que lamenta estar vivendo outros tempos piores. Não. Reconheço que muita coisa mudou para melhor. A mudança é um aspecto comportamental inerente ao ser humano. Neste século, vivenciamos um processo acelerado de transformações, movidas com tanta complexidade e com tamanha rapidez que obrigam o homem de hoje a sentir necessidade de mudar, de buscar melhor qualidade de vida.

Apesar de ciente disto, inúmeras vezes me pergunto: o que aconteceu nos últimos 50 anos que possibilitou, dentre outras coisas, a perda de valores como a honestidade, por exemplo? Creio que foi a desestruturação da família que tem papel fundamental na construção
dos valores ético-sociais e no desenvolvimento saudável da criança. Além disso, fatores como o incentivo ao consumo irracional, a busca pela carreira perfeita, o individualismo crônico, a proliferação de especialistas que explicam tudo, o business transformado em religião , a cultura própria enfraquecida pela globalização, contribuem para o aparecimento dos problemas sociais atuais. No meu tempo de criança, o nome de família deveria ser respeitado a todo custo, bastando a simples palavra empenhada para se ter crédito. E a partir da perde de valores essenciais para a convivência social respeitosa, cresce a violência que assusta e enclausurado os moradores desta cidade, deste país.

Lembro-me bem da minha tenra infância em Bonsucesso, subúrbio carioca. Naquela época ainda não havia ventiladores e, nos dias quentes de verão, era hábito dormirmos em camas de armar no quintal, contemplando o céu que parecia mais estrelado. Acordávamos, vez por outra, com o apito do guarda-noturno que percorria as ruas vigiando possíveis ladrões de galinhas. Sim, galinhas! Quase todos os quintais tinham cachorros e galinhas. Além de pés de cajá, manga, goiaba e pitanga.

E, às cinco horas da manhã, sem precisar de despertador, éramos acordados pelo cantar do galo.

É desse cotidiano que sinto saudade.E não apenas porque são lembranças de minha infância ( é claro que todos sentem saudade dessa época da vida, ainda que tenham sido tempos difíceis); é porque, de fato, vivia-se um tempo mais feliz. "Eu era alegre como um rio,um bicho, um bando de pardais;Como um galo, quando havia...quando havia galos, noites e quintais." (Galos, Noites e Quintais - Belchior)

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