Hoje, enrolada em um cobertor quentinho no meu sofá, pensei em alguém que não conheço. É um rosto de homem com quem, suponho, cruzei pelos caminhos da vida. Um rosto marcado pelo tempo, com olheiras profundas, riscos de sangue nos olhos e boca franzida. Não sorri. Talvez porque não queira mostrar aos que o olham sua boca desdentada. Talvez porque seja uma pessoa triste demais, sem motivos para sorrir. Hoje pensei neste homem com carinho e em todos aqueles que me despertam esse sentimento de piedade. O frio tem o poder de me aquecer a alma. Sou solidária à dor deste homem. Tenho pena dos que passam pela vida sem viver. Será que não tenho sido assim também ? Tenho pena de, muitas vezes, não ter sido eu mesma. Tenho pena daqueles que acham que são alguém. Lanço mão de uma poesia de Florbela Espanca para dizer o que não consigo:
A Minha Piedade
A Bourbon e Meneses
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,
Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensangüentam na subida!
Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...
De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser
Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...
( Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" )
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