"Por que nos tornamos cegos?. Não sei.
Creio que não nos tornamos cegos, creio que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem"
(Ensaio sobre a cegueira. J.Saramago.)
No âmbito sócio-político, as sociedades sofreram significativas mudanças motivadas pelo progresso tecnológico, alterando as bases da existência humana. Uma nova concepção de mundo surgiu, então, supervalorizando a matéria em detrimento dos valores morais e espirituais que entraram em crise profunda. Como conseqüência, a poesia já não é tão acessível, porque a própria realidade fez com que se perdesse a capacidade de ouvir: a si mesmo, o mundo, o outro. Numa sociedade de caráter essencialmente sofístico, como é a nossa, pouca atenção se dá ao que realmente é importante, chegando, por vezes, à banalização total.
Por que poetas em tempos de indigência? – pergunta Hölderlin, que analisa nosso tempo, um tempo de decadência, de declínio, de abismo.
“Ah, meu amigo, chegamos tarde demais... Sim, ainda há deuses mas acima de nossas cabeças, em outro mundo (...) Que dizer? Não sei. Para que poetas em tempos de indigência?".( Hölderlin)
Hölderlin, poeta alemão, foi eleito pelo grande filósofo Heidegger para ser o “poeta da poesia”. "Nosso tempo - comenta Heidegger - mal compreende a pergunta; como vamos compreender a resposta dada por Hölderlin?".
Como Hölderlin manifesta este tempo de indigência? A indigência dos tempos não seria a falta de bens materiais, mas, sim, a falta de sentido das coisas, o afastamento do homem de Deus, a própria indigência que cai no esquecimento, sendo essa a principal miséria deste tempo. E é na poesia, cuja atividade consiste essencialmente em deixar ser o ser, onde o homem busca espaço para manifestar-se. No espaço poético é possível ao homem recuperar sua essência.
A linguagem poética deve ser vista como a que possibilita o homem apreender a verdade do ser e, conseqüentemente, existir, viver humanamente sem perder de vista o diálogo com o mundo; em suma, pertencer ao mundo.
A missão do poeta é, primordialmente, fazer com que a linguagem se desprenda de uma estrutura lógica e passe a ser uma possibilidade para o pensamento e sua expressão. O poeta deve resgatar, através do uso da palavra, o que subjaz a experiência cotidiana: das coisas mais simples extrair pensamentos mais complexos acerca da existência humana, sendo capaz de argumentar sobre o que faz do momento atual uma época de indigência e resgatar os valores éticos e morais afastados da vida moderna. O poeta, ao exprimir o que os outros sentem, está mudando seus sentimentos, por torná-los mais conscientes; está fazendo-os mais sabedores do que sentem e, portanto, ensinando-os algo sobre si mesmos.
É perfeitamente possível dizer que a poesia se entrelaça à filosofia em seu propósito social de fazer com que o homem se entenda e entenda o mundo que o cerca. Entretanto, não se pode esquecer de que a primeira função social da poesia é proporcionar prazer, deixando marcas que fazem diferença à vida do homem. Sem produzir esses efeitos, ela, simplesmente, não é poesia. A poesia faz diferença, afinal, à sensibilidade, às vidas de todo o povo, quer leia e goste de poesia, quer não. E isto é o que quero dizer com a função social da poesia em seu sentido mais amplo: ela realmente influencia a sensibilidade do povo.
Portanto, nesses tempos de indigência em que vivemos, tempos de penúrias e de desencontros, tempos em que parece que a dor do próximo não nos afeta, a poesia exerce um grande papel social: despertar no outro o sentimento –dor e/ou prazer– com o intuito de descobrir a verdadeira sociedade que está por trás das marcas de um tempo voltado para o imediatismo, o consumismo e o excessivo individualismo; descobrir uma sociedade agonizante que, mesmo soterrada por falsos valores, luta, desesperadamente, para manifestar-se.
Roza Palomanes
Leia minhas poesias. Talvez seja pretensão, mas... sou poetisa!
Leia minhas poesias. Talvez seja pretensão, mas... sou poetisa!
4 comentários:
Oi Roza!!!
Passando só pra deixar um beijinho!
Que o texto é ótimo nem preciso falar, né?
Beijos,
Alice
www.asmaravilhasdopaisdealice.blogger.com.br
Que texto sofisticado, hein Roza?
Um antigo já havia dito " Nada do que é humano me é estranho".
Me parece que o Homem histórico não mudou muito nesses poucos milênios.
Uma infeliz característica do nosso tempo é que a mediocridade,a nossa velha conhecida, hoje é exaltada, é um horizonte, um norte.
Beijo,
Lula.
Apesar de alguns erros de concordância assindética e de algumas redundâncias de rima peripatética.
Achei o texto porreta.
Continue tentando, não desista!
Arrepia Roza!!
Ass.
Lino Filho
Grão mestre de Linguística avançada e Kartológica.
Que bom que vocês acharam o texto legal. Embora tenha parecido sofisticado não foi essa a intenção. Apenas deixei a emoção falar sobre a emoção; é preciso mais sentimento expresso, ainda que num gesto ou num olhar. Quanto à mediocridade dos tempos atuais, como há muito que se dizer, preferi fazê-lo numa nova postagem. Valeram os comentários. Beijos carinhosos.
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