Aqueles que me conhecem sabem como gosto das músicas cantadas por Mercedes Sosa. Uma deles diz, em uma de suas estrofes, o seguinte:
"Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacío y solo sin haber hecho lo suficiente."
Este é um de meus maiores medos e, por isso mesmo, uma grande preocupação: não passar pela vida como se essa fosse um passeio de férias. Deve ser muito triste se perceber vazio. Quando digo vazio, me refiro a sem ambições e conquistas. Não. Não pense que falo somente das conquistas materiais; falo, especialmente, das conquistas no campo da realização pessoal.
Observando, certa vez, uma pessoa próxima a mim, que se dedicou, a vida toda, aos filhos, sendo dona de casa, esposa e mãe, exclusivamente, pude observar em seu olhar esse vazio a que me referi quando ela percebeu que a filha já seguia sua própria vida. Ela passou anos a fio vivendo, a cada dia, a vida dos filhos, se esquecendo de olhar para si mesma e descobrir que talentos lhe haviam sido dados para que fossem trabalhados e aumentados.
Somos individualidades aprendendo, no convívio com o próximo, a achar nosso espaço no mundo. Não se pode viver a vida do outro impunimente. Pagamos um preço caro quando não descobrimos nosso papel no mundo. Porque são esses papéis que nos constróem e nos sedimentam. São as relações que se estabelecem a partir dos papéis que desempenhamos que nos fazem imortais.
Que a morte não nos encontre vazios, sem termos feito o suficiente. Por nós mesmos. Pelo mundo.
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